A vida secreta das Vespas.
" 5 de Maio
A Colmeia é uma cidadela encouraçada, localizada no coração de uma ilha que é, graças aos céus; perdida. O mundo fora tomado há anos atrás por uma horda de não-se-sabe-o-quê que se recusa a adentrar os mares. Tudo flui perfeitamente aqui, apesar da crise lá fora. Não sabemos o que tomou de assalto nosso velho mundo, mas vemos na atividade extrativista desse curioso combustível "Mel" uma chance de podermos, enfim, reestruturar nosso antigo mundo.
22 de Maio
Uma governante bondosa, porém tão distante; esses bizarros robôs e as curiosas Vespas : Algum desses mistérios eu sinto que devo me aprofundar. Talvez comece por quem me é semelhante.
8 de setembro
Medo, insegurança e um enorme vazio obscuro à frente. Aqui vou eu, com a ajuda do estranho rapaz Isaac e bastante desconfiado sobre o que virá."
Professor R.H. Tylor.
"Tylor e Isaac caminhavam lentamente museu adentro. Uma marcante penumbra e poucas janelas tornavam o lugar com ar claustrofóbico; com uma pitada leve de horror , pelas cabeças de feras estranhas e placas com inscrições complexas. Ambos pararam de frente a uma especial placa. Isaac parou pelo seu entalhe curioso em ouro, e o professor parou porque esta era a razão central de estarem ali.
O professor explicou ser pesquisador de culturas; mas só podia se interessar por uma das únicas culturas exóticas disponíveis a estudo de campo; a das Vespas. Nunca teve coragem ou oportunidade para se aventurar fora da Colmeia; até o dia que fora chamado para ir na drenagem do poço de Mel. Lá, uma das escavadeiras acertou algo metálico , e as operárias, por alguma razão,decidiram não destruir o achado como qualquer empecilho, mas sabiam exatamente a quem recorrer. Quando chegou à escavação, o professor se deparou com uma placa de dois metros de altura por três de largura e cerca de 25 centímetros de espessura. A placa era simples, sem códigos; mas uma cena peculiar entalhada : Como uma espécie de ídolo, uma grande figura humanoide estava ao centro, de aspecto indescritível - A única parte reconhecível eram um par de pontas que pareciam orelhas ou chifres - Na esquerda do ídolo uma figura com silhueta de mulher trajando um vestido, sendo essa figura com altura de um terço do ídolo; e à direita pequenos seres, proporcionalmente finos e enfileirados.
Um estranho calafrio transpassou o corpo de Isaac que,um tanto perplexo, se virou para perguntar algo ao professor Tylor, mas viu algo que o deixou completamente paralisado. Por cima do ombro do professor podia-se ver uma Vespa alguns passos atrás; com o ferrão saindo pelo pulso com a mesma paixão que um cavaleiro segura sua espada.
A boca de Isaac ia começar a balbuciar algo, quando o professor fechou os olhos e suando, concordou com a cabeça. A Vespa começa a se aproximar, levantando o braço com o ferrão na altura dos olhos oculados da máscara metálica.
Ferrões de Vespa são barras afiadas de prata que, uma Vespa adulta carrega no braço direito, por dentro da carne; e como puderam ver no museu, Isaac e professor Tylor; são retráteis à vontade do usuário. Um desses ferrões vinha na direção da dupla, e brilhava contra a escassa luz do museu.
A dupla, agora virada para o invasor, estava imóvel e suando frio. A morte vinha a passos lentos, mas parece que algo a deteve.
A centímetros de distância, rosto-a-máscara estavam Isaac e a Vespa, e esta encarava de muito perto o jovem, como fosse um dos artigos do museu. A Vespa então recua um passo e olha para a placa. Retrai o ferrão, cai de joelhos e seu peito começa a insuflar e esvaziar rapidamente, e um barulho desesperado e abafado vem da máscara, que a Vespa retira com certo requinte, como fosse uma peça de roupa fina. Uma moça ainda mais jovem que Isaac, de cabelos brancos curtos e um pontudo nariz por onde escorriam as lágrimas.
Estuporado, o professor Tylor ajoelha-se bem devagar e pergunta algo em tom baixo qualquer coisa à Vespa. Uma resposta afirmativa ecoa em doce voz pelo museu e faz os rapazes arregalarem os olhos. Em gestos graciosos e ágeis; esta aponta com a mão para a placa a conta-lhes uma história um tanto curiosa :
Aonde agora existe a Colmeia, fora apenas uma ilha abandonada. As pessoas se interessavam pela descoberta, paixões, erros, cidades de concreto e ferro e milhas de aventuras pelo mundo inteiro. Em uma noite de forte brilho das estrelas, eles apareceram. Ninguém sabia o que era ou por que estavam lá, e ninguém sobreviveu para relatar qualquer mísero detalhe. O que as lendas das Vespas contam, é que estavam lá para libertar o que adormeceu. Snasitir'Bh era o nome dado pelas Vespas.
A Vespa apontou para a placa, na gravura do ídolo. Tylor começou a estremecer e Isaac ficou pálido.
Foram sessões longas de perguntas sobre o povo dela, as lendas, significados...E Isaac apenas perguntou o nome da jovem, se ela tinha um.
Aurora, era seu nome. A pronúncia dos pequenos lábios pálidos despertou algum incômodo estranho em Isaac. Por fim, ela contou que as Vespas não eram selvagens, mas pessoas fugidas da colmeia. Quando questionada por que alguém fugiria de um lugar tão receptivo e bom, Aurora mostrou um lado obscuro de sua expressão e a ponto de dizer-lhes, a placa então começou a rachar-se sozinha até quebrar, e perdeu seu brilho dourado. Aurora empalideceu rapidamente disse que não havia mais tempo, deviam acompanhá-la. O professor correu a um gabinete e voltou, aos tropeços, com uma pequena bolsa e disse que estava pronto para ir. Isaac fechou a jaqueta vermelha até a gola e acenou com a cabeça. E saíram do museu, caminhando rápido; sem olhar para os lados, mas atraindo a fria atenção dos Zangões.
Havia um beco estreito , no qual Aurora arrancou do chão uma tampa secreta e disse que o canal dava para fora da colmeia. O professor, sentindo um misto de euforia e medo perguntou à Vespa aonde iriam.
Ela disse que iriam conhecer a vida secreta das Vespas.
Queen Bee olhava de seu gabinete, no prédio mais alto da cidade, para baixo; fria e concentradamente. Havia em sua mesa um computador que se desligou ao estralar de dedos da governante. Quando preparou-se para levantar, sentiu algo estranho. O quadro na parede atrás dela possuía uma placa idêntica à placa do museu do professor Tylor, porém menor; que também secou e rachou-se no meio, perdendo seu brilho. Por alguns instantes, Queen Bee ficou parada sem reação; e após um surto de lucidez; mesmo sem expressão, levantou-se e pressionou um botão na lateral da mesa. Um painel eletrônico surgiu em sua frente, com algumas informações em língua estranha, e um gráfico semelhante a um termômetro chamava a atenção. Havia uma meta em vermelho um pouco acima da metade do gráfico, e a barra de cor laranja ultrapassava a meta. Com um gesto veloz do braço, Queen Bee desligou toda a força na sala, pegou uma espécie de bastão com um cristal na ponta e saiu pela porta.
Continua...
sexta-feira, 7 de agosto de 2015
segunda-feira, 3 de agosto de 2015
A Colmeia - Parte I
Mel e metal.
"Todos amam e saúdam a mamãe.
Embora só as machina sejam fruto direto dela; e esta nunca tenha pedido ou nos obrigado a se curvar diante da magnificência da Queen Bee, o fazemos com total voluntariedade e prazer. Ela não parece gostar, mas o fazemos mesmo assim.
Acho que nossa grandiosa líder esconde algo embaixo do vestido, que só pode ser visto por quem se ajoelha."
Isaac.
"As ruas da colmeia levam a vários lugares. Lugares de trabalho; como escritórios, construtoras, lojas ou alguma fábrica da LUM. As machina são todas feitas na LUM e suas imensas montadoras.
Curiosos seres, essas machina. São androides arranjados em três padrões : Operários ( Trabalham na obtenção do Mel ), Zangões ( Mantêm a ordem e policiam ) e Verdugos ( Guarda pessoal da Rainha; só podem haver três em atividade ).
Isaac vaga preguiçosamente pelas ruas semi-vazias da colmeia, em direção ao grande poço de Mel. Não mel comum, mas o nome de substância viscosa e alaranjada que é utilizada como fonte de energia para a colmeia; embora nunca é vista uma gota de Mel fora do poço ou dos veículos de transporte.
O barulho das operárias forma uma estranha sinfonia aparentemente caótica, mas complementar ao progresso do trabalho.
E o trabalho não para. Nunca.
Há diversas apresentações musicais, teatrais, cinemas ao ar livre e em salas, banquetes, jogos esportivos e festas acontecendo neste exato momento, tudo sempre gratuito e convidativo. As pessoas de carne e osso trabalham em afazeres voltados às próprias pessoas; como aprendizados. Cozinheiros, alfaiates, músicos, atores, atletas, escritores, professores...Seria decadente supor que as pessoas parasitam o trabalho árduo e incessante das machina, mas , curiosamente; quando a vida útil de um desses androides está a acabar, eles são enviados para qualquer atividade das pessoas.
Assistem imóveis, aplaudem e se retiram; para serem desmontados. Talvez uma última diversão antes...de morrer.
Isaac fazia o oposto. Era um pontinho carnal, observando o movimento coordenado das operárias; enquanto era observado pelos Zangões. Essa força vigilante dos zangões, chegava a ser misteriosa e incômoda, pois ficava em pontos estratégicos; sempre observando o humano mais próximo, fixamente. Quando o humano saía do campo de visão do Zangão,este voltava a cabeça para frente em um movimento elástico, totalmente mecânico. Seus capacetes eram ornados com quatro vãos emitindo luz amarela, como fossem os olhos.
Estáticos, atentos...E algo mais intrínseco à sua natureza caracterizavam os Zangões.
Eram os únicos que realmente perturbavam Isaac em suas observações diárias; como se o rapaz tivesse ideia do que eles faziam, embora nunca os tivesse visto.
Machina e humanidade; se cruzando diariamente num frenesi perfeito e bem ajustado pelas mãos da Queen Bee.
Em uma manhã mais fria e nublada que o normal; Issac esbarra em um senhor, que ao lhe pedir desculpas, lhe oferece um convite : Ir à exposição de mais novas descobertas arqueológicas por ele promovidas. Seu nome era Raymond H. Tylor.
Isaac olhou para a quadra central, do poço e olhou de volta para o sorriso inocente e simpático do professor Raymond.
Seguiram ambos ao museu, enquanto o prof. Raymond explica seu trabalho fervorosamente ao jovem Isaac.
As Vespas eram uma sociedade minúscula, que se instalava às bordas dos portões da Colmeia. Não possuíam contato com machina, e levavam uma vida pouco saudável, além de ser voltada para a matança de todos que viviam dentro da colmeia. Homens, mulheres e crianças vespas usavam máscaras com um par de lentes de aumento que se ajustavam apenas com o pensamento. Eram facilmente abatidos pelos Zangões, que faziam turnos de varredura em volta dos portões; obrigando toda e qualquer vespa a se esconder. Lendas são contadas dentro da colmeia em torno deste misterioso povo, que viram até películas, música, histórias...
Quando Isaac adentra o museu, sente um leve calafrio e olha para trás. Desconfiado, se volta para a frente.
As esticadas lentes da máscara metálica, dourada e maltratada de uma vespa contraem devagar quando em seu reflexo mostram Issac e prof. Raymond entrando e fechando a porta.
A vespa se vira e vai embora."
Continua...
"Todos amam e saúdam a mamãe.
Embora só as machina sejam fruto direto dela; e esta nunca tenha pedido ou nos obrigado a se curvar diante da magnificência da Queen Bee, o fazemos com total voluntariedade e prazer. Ela não parece gostar, mas o fazemos mesmo assim.
Acho que nossa grandiosa líder esconde algo embaixo do vestido, que só pode ser visto por quem se ajoelha."
Isaac.
"As ruas da colmeia levam a vários lugares. Lugares de trabalho; como escritórios, construtoras, lojas ou alguma fábrica da LUM. As machina são todas feitas na LUM e suas imensas montadoras.
Curiosos seres, essas machina. São androides arranjados em três padrões : Operários ( Trabalham na obtenção do Mel ), Zangões ( Mantêm a ordem e policiam ) e Verdugos ( Guarda pessoal da Rainha; só podem haver três em atividade ).
Isaac vaga preguiçosamente pelas ruas semi-vazias da colmeia, em direção ao grande poço de Mel. Não mel comum, mas o nome de substância viscosa e alaranjada que é utilizada como fonte de energia para a colmeia; embora nunca é vista uma gota de Mel fora do poço ou dos veículos de transporte.
O barulho das operárias forma uma estranha sinfonia aparentemente caótica, mas complementar ao progresso do trabalho.
E o trabalho não para. Nunca.
Há diversas apresentações musicais, teatrais, cinemas ao ar livre e em salas, banquetes, jogos esportivos e festas acontecendo neste exato momento, tudo sempre gratuito e convidativo. As pessoas de carne e osso trabalham em afazeres voltados às próprias pessoas; como aprendizados. Cozinheiros, alfaiates, músicos, atores, atletas, escritores, professores...Seria decadente supor que as pessoas parasitam o trabalho árduo e incessante das machina, mas , curiosamente; quando a vida útil de um desses androides está a acabar, eles são enviados para qualquer atividade das pessoas.
Assistem imóveis, aplaudem e se retiram; para serem desmontados. Talvez uma última diversão antes...de morrer.
Isaac fazia o oposto. Era um pontinho carnal, observando o movimento coordenado das operárias; enquanto era observado pelos Zangões. Essa força vigilante dos zangões, chegava a ser misteriosa e incômoda, pois ficava em pontos estratégicos; sempre observando o humano mais próximo, fixamente. Quando o humano saía do campo de visão do Zangão,este voltava a cabeça para frente em um movimento elástico, totalmente mecânico. Seus capacetes eram ornados com quatro vãos emitindo luz amarela, como fossem os olhos.
Estáticos, atentos...E algo mais intrínseco à sua natureza caracterizavam os Zangões.
Eram os únicos que realmente perturbavam Isaac em suas observações diárias; como se o rapaz tivesse ideia do que eles faziam, embora nunca os tivesse visto.
Machina e humanidade; se cruzando diariamente num frenesi perfeito e bem ajustado pelas mãos da Queen Bee.
Em uma manhã mais fria e nublada que o normal; Issac esbarra em um senhor, que ao lhe pedir desculpas, lhe oferece um convite : Ir à exposição de mais novas descobertas arqueológicas por ele promovidas. Seu nome era Raymond H. Tylor.
Isaac olhou para a quadra central, do poço e olhou de volta para o sorriso inocente e simpático do professor Raymond.
Seguiram ambos ao museu, enquanto o prof. Raymond explica seu trabalho fervorosamente ao jovem Isaac.
As Vespas eram uma sociedade minúscula, que se instalava às bordas dos portões da Colmeia. Não possuíam contato com machina, e levavam uma vida pouco saudável, além de ser voltada para a matança de todos que viviam dentro da colmeia. Homens, mulheres e crianças vespas usavam máscaras com um par de lentes de aumento que se ajustavam apenas com o pensamento. Eram facilmente abatidos pelos Zangões, que faziam turnos de varredura em volta dos portões; obrigando toda e qualquer vespa a se esconder. Lendas são contadas dentro da colmeia em torno deste misterioso povo, que viram até películas, música, histórias...
Quando Isaac adentra o museu, sente um leve calafrio e olha para trás. Desconfiado, se volta para a frente.
As esticadas lentes da máscara metálica, dourada e maltratada de uma vespa contraem devagar quando em seu reflexo mostram Issac e prof. Raymond entrando e fechando a porta.
A vespa se vira e vai embora."
Continua...
sexta-feira, 31 de julho de 2015
O Cômodo Obscuro.
"O cômodo obscuro se chama mente.
É certamente o lugar mais estranho que você já habitou.
É um cômodo diferente dos outros;
Pois não serve pra dormir, cozinhar ou receber visita;
É exclusivamente feito para te assombrar com os demônios
Do mundo.
Os dragões que desprendem da mitologia
Vão encontrar um refúgio seguro,
Com comida e água fresca
Nesse cômodo obscuro;
Vão ser, somente aí, livres para praticar existência
E
Fazer você sentir que existe, também.
Se deseja fazer uma marca ou gravar seu nome
Na parede do mundo,
Saiba que o combustível de fogo é guardado
Nesse cômodo obscuro, junto com tudo
Que te faz sentir sempre mais e melhor,
É onde pendura os quadros pintados com seus melhores
Momentos.
Se um dia chegar a se apaixonar,
Saiba que seu coração ganha a fama por seu tua consciência,
Mas que só o obscurecido cômodo
Toca a música que pulsa cada centímetro de você
Em disparada transcendente ao outro ser.
Seu cômodo tem janelas curiosas
Que não recebem a luz do dia,
Mas transformam em luz
Qualquer dia que florescer ou explodir em ti,
Pois tudo acaba sempre em luz.
Luz obscura.
Se por um acaso
Deseja partir em jornada mundo afora,
Não deixa que tuas sensações te enganem;
Abra de bom grado a pesada porta que separa-te
Do cômodo,
Espalha o pó
E aventure-se a conhecer
Você mesmo,
Em seu cômodo obscuro."
É certamente o lugar mais estranho que você já habitou.
É um cômodo diferente dos outros;
Pois não serve pra dormir, cozinhar ou receber visita;
É exclusivamente feito para te assombrar com os demônios
Do mundo.
Os dragões que desprendem da mitologia
Vão encontrar um refúgio seguro,
Com comida e água fresca
Nesse cômodo obscuro;
Vão ser, somente aí, livres para praticar existência
E
Fazer você sentir que existe, também.
Se deseja fazer uma marca ou gravar seu nome
Na parede do mundo,
Saiba que o combustível de fogo é guardado
Nesse cômodo obscuro, junto com tudo
Que te faz sentir sempre mais e melhor,
É onde pendura os quadros pintados com seus melhores
Momentos.
Se um dia chegar a se apaixonar,
Saiba que seu coração ganha a fama por seu tua consciência,
Mas que só o obscurecido cômodo
Toca a música que pulsa cada centímetro de você
Em disparada transcendente ao outro ser.
Seu cômodo tem janelas curiosas
Que não recebem a luz do dia,
Mas transformam em luz
Qualquer dia que florescer ou explodir em ti,
Pois tudo acaba sempre em luz.
Luz obscura.
Se por um acaso
Deseja partir em jornada mundo afora,
Não deixa que tuas sensações te enganem;
Abra de bom grado a pesada porta que separa-te
Do cômodo,
Espalha o pó
E aventure-se a conhecer
Você mesmo,
Em seu cômodo obscuro."
domingo, 26 de julho de 2015
Nightingale.
"I
A lua púrpura é o coração da Espanha nas noites de festa.
As danças corpo a corpo formam, todas juntas, um ritmo de harmônica inconstância como sangue quente correndo pelas veias de toda Andaluzia.
Fortes são as pulsações desse sangue flamenco que se passam de dança em dança; lábio em lábio; e sem ceder a qualquer encanto mantinham-se imaculados os lábios da pequena Rouxinol; de traços corporais suaves e praticamente feitos para flamenco, merengue ou salsa. Essa pequena rouxinol está sempre em todas as pulsações espanholas e acelera e aquece ainda mais o sangue das ruas e dos homens que são honrados com uma dança.
Só aparece pelas frestas noite, a Rouxinol; e com um ritmo acelerado, tanto de coração quanto de ginga. Porta sempre uma curiosa máscara que combina estranhamente com seu feitio encantador e livre de um preconceito tão efêmero quanto a aparência.
Curioso apelido, já que se vale dança e ainda assim é chamada por um pássaro famoso pela voz. Dize-se que quem assim a chamou pela primeira vez fora o único ou única que tenha ouvido a voz ou despido sua máscara. Tamanha honra é dar-se sem máscara à pessoa que a merece, pois não cabem mais julgamentos depois que a própria doçura em si seja a única imagem que se tem desse alguém.
II
Os sonhos saem pelas varandas e ricocheteiam nas ligeiras palhetadas da guitarras que animam o festival; espalham-se e apaixonam-se pelos suspiros que se escondem nas gargantas e são disfarçados pela dança.
Porém um disfarce chama sempre mais atenção que os outros : Uma máscara cromada e adornada por um perfeito entalhe de rosa atravessado pela expressão fria do objeto toma a cena e contrasta com o curto vestido preto e vermelho que se move e balança hipnoticamente, traçada perfeitamente a silhueta do quadril da Rouxinol e embalada em forma de pintura pela acelerada guitarra.
Entrava em meio a todos dançando sozinha e atirada em direção ao nada, mas sempre sustentada pelos olhares de desprezo ou paixão severa, e seguia a assim a noite, de braço em braço, dança em dança; mas sem desferir um beijo, palavra ou expressão sequer. O rosto e a boca tapados pela máscara e a garganta tapada pelo mistério quase erótico.
Como quem apanha um beijo no ar, um jovem apanhou esse mistério e com olhar semicerrado dançou em direção ao Rouxinol; como se entendesse que podia ele desvendar aquela história se erguendo a passos...calientes.
III
A Rouxinol sem voz some em meio às pulsações da cidade e o jovem fracassa em achá-la.
Lamenta pela manhã não lhe ter perguntado o nome ou qualquer coisa; pois ficara bestificado com os movimentos ligeiros energizados por ritmo rápido.
Esse ritmo rápido a atrai como formigas ao doce e como as sombras ganham vida na própria luz; esta misteriosa luz obscura ganha vida nas sombras da noite, e dos becos e festas por toda a Andaluzia passa a mascarada em busca de dança.
Festa por festa, dança por dança, nota por nota.
Eternamente.
Febre passageira, espírito do simplicidade e beleza que lutam contra a gaiola para que se aconchegue no seio da felicidade qualquer povo que não mereça sofrimento.
A lua púrpura é o coração da Espanha nas noites de festa.
As danças corpo a corpo formam, todas juntas, um ritmo de harmônica inconstância como sangue quente correndo pelas veias de toda Andaluzia.
Fortes são as pulsações desse sangue flamenco que se passam de dança em dança; lábio em lábio; e sem ceder a qualquer encanto mantinham-se imaculados os lábios da pequena Rouxinol; de traços corporais suaves e praticamente feitos para flamenco, merengue ou salsa. Essa pequena rouxinol está sempre em todas as pulsações espanholas e acelera e aquece ainda mais o sangue das ruas e dos homens que são honrados com uma dança.
Só aparece pelas frestas noite, a Rouxinol; e com um ritmo acelerado, tanto de coração quanto de ginga. Porta sempre uma curiosa máscara que combina estranhamente com seu feitio encantador e livre de um preconceito tão efêmero quanto a aparência.
Curioso apelido, já que se vale dança e ainda assim é chamada por um pássaro famoso pela voz. Dize-se que quem assim a chamou pela primeira vez fora o único ou única que tenha ouvido a voz ou despido sua máscara. Tamanha honra é dar-se sem máscara à pessoa que a merece, pois não cabem mais julgamentos depois que a própria doçura em si seja a única imagem que se tem desse alguém.
II
Os sonhos saem pelas varandas e ricocheteiam nas ligeiras palhetadas da guitarras que animam o festival; espalham-se e apaixonam-se pelos suspiros que se escondem nas gargantas e são disfarçados pela dança.
Porém um disfarce chama sempre mais atenção que os outros : Uma máscara cromada e adornada por um perfeito entalhe de rosa atravessado pela expressão fria do objeto toma a cena e contrasta com o curto vestido preto e vermelho que se move e balança hipnoticamente, traçada perfeitamente a silhueta do quadril da Rouxinol e embalada em forma de pintura pela acelerada guitarra.
Entrava em meio a todos dançando sozinha e atirada em direção ao nada, mas sempre sustentada pelos olhares de desprezo ou paixão severa, e seguia a assim a noite, de braço em braço, dança em dança; mas sem desferir um beijo, palavra ou expressão sequer. O rosto e a boca tapados pela máscara e a garganta tapada pelo mistério quase erótico.
Como quem apanha um beijo no ar, um jovem apanhou esse mistério e com olhar semicerrado dançou em direção ao Rouxinol; como se entendesse que podia ele desvendar aquela história se erguendo a passos...calientes.
III
A Rouxinol sem voz some em meio às pulsações da cidade e o jovem fracassa em achá-la.
Lamenta pela manhã não lhe ter perguntado o nome ou qualquer coisa; pois ficara bestificado com os movimentos ligeiros energizados por ritmo rápido.
Esse ritmo rápido a atrai como formigas ao doce e como as sombras ganham vida na própria luz; esta misteriosa luz obscura ganha vida nas sombras da noite, e dos becos e festas por toda a Andaluzia passa a mascarada em busca de dança.
Festa por festa, dança por dança, nota por nota.
Eternamente.
Febre passageira, espírito do simplicidade e beleza que lutam contra a gaiola para que se aconchegue no seio da felicidade qualquer povo que não mereça sofrimento.
segunda-feira, 13 de julho de 2015
Poema do pequeno Baú, ou A Caixa de Pandora.
"Eu tenho um palpite
Eu tenho um palpite
Eu tenho um palpite
Eu tenho um palpite.
Não.
É quase tudo que me sai à cabeça,
Quando o bauzinho faz os sons graves
Virarem , no ar, signos misteriosos,
Ou ostenta , de próprio significado
Um ainda mais misterioso signo :
Um sorriso.
O bauzinho se deixa levar pelo embalo saboroso
Da noite de festa,
Mas sou , de fundo orgulho,
O conhecedor primo dos seus segredos.
Segredos esses que atraíram um certo
Curioso
A fuçar-te as dobradiças
Atrás das respostas às próprias inquietações da vida
Dentro de um bauzinho
Sem tranca,
Mas com singular fecho.
Não tenho sua chave,
Não o controlo,
Mas torno um prazer da vida
Fazer o bauzinho gargalhar,
Para que seu interior eu veja.
Não é tão raso quanto o mesmo se imagina,
Guarda em si profundas
Forças,
Fraquezas,
E um mundo tão em si
Que não vejo o Baú como uma coisa,
Mas
Sim
Algo em si,
Que sempre guarda o mais essencial caráter humano,
E que não pode ser apenas a caixa de Pandora,
Mas a própria Pandora :
Única,
Primeira,
Magnífica.
Eu tenho um palpite
Eu tenho um palpite
Eu tenho um palpite.
Não.
É quase tudo que me sai à cabeça,
Quando o bauzinho faz os sons graves
Virarem , no ar, signos misteriosos,
Ou ostenta , de próprio significado
Um ainda mais misterioso signo :
Um sorriso.
O bauzinho se deixa levar pelo embalo saboroso
Da noite de festa,
Mas sou , de fundo orgulho,
O conhecedor primo dos seus segredos.
Segredos esses que atraíram um certo
Curioso
A fuçar-te as dobradiças
Atrás das respostas às próprias inquietações da vida
Dentro de um bauzinho
Sem tranca,
Mas com singular fecho.
Não tenho sua chave,
Não o controlo,
Mas torno um prazer da vida
Fazer o bauzinho gargalhar,
Para que seu interior eu veja.
Não é tão raso quanto o mesmo se imagina,
Guarda em si profundas
Forças,
Fraquezas,
E um mundo tão em si
Que não vejo o Baú como uma coisa,
Mas
Sim
Algo em si,
Que sempre guarda o mais essencial caráter humano,
E que não pode ser apenas a caixa de Pandora,
Mas a própria Pandora :
Única,
Primeira,
Magnífica.
sábado, 4 de julho de 2015
A Razão da Justiça.
"Era uma nação muito engraçada,
Só tinha um Rei, que sábio de berço
Devia sempre ser, não por família,
Mas por escolha de um Destino fanfarrão.
A cidade crescia mais e mais
Em torno dos três Centuriões de Ouro,
Que informavam a decisão do universo
Para o pequeno povo.
Não tinham rostos, os monólitos dourados;
Somente um espaço para as palavras.
Uma de cada vez e as três juntas.
Do rosto de cada Centurião, o veredicto
Da boca de cada Rei, a interpretação.
Rei Edvardo, desde pequeno criado para ser Rei,
Livros de legislação e filosofia ainda muito jovem
Estudos ao invés de anedotas,
Tirou-se o açúcar da infância
E se acrescentou a gosto o ferro das leis.
A receita correta para servir um tirano à moda.
Os centuriões se levantam da pose estática
E põe-se de pé a anunciar as palavras já escolhidas,
Por ninguém sabe quem, mas precisamente
Como o carrasco ao réu.
Nos visores dos capacetes das estátuas vivas aparece :
JORQUÈ - VIRGO - MORTEM
A Ágora estava em pânico.
As três palavras pareciam centenas,
Pois pareciam detalhar cada condição
Do que seria uma sentença final.
"O Cavaleiro escuro, Jorqué.
Aparece sob a constelação de Virgem,
Semeia horror como quer,
As mulheres morrem de vertigem,
As crianças morrem de pé."
Assim era um poema popular daquele povo,
Que não apreciava cantigas de amor,
Só lamentos de almas perdidas
E choros de almas banhadas em dor.
O Rei chegou ao seu ápice,
Filosofou e maturou a resposta celestial:
Exigiu as virgens da cidade
Para completar o ritual,
Ritual de libertação de seu povo,
Com a bênção do Universo,
Que, como dizia o sábio Rei;
Clama seu sacrifício carnal.
O povo entregou ,sem demora, as humildes jovens,
Nunca prontas ao destino injusto;
E trancafiadas foram
Nos aposentos do Rei.
Na noite do sacrifício, uma confissão dura :
Rei Edvardo e uma das jovens, Temys, a cega; estão apaixonados,
Deitaram-se pela manhã
E arrependeram-se quando viram o fatal presságio,
Do reflexo das chamas da fogueira nas armaduras dos Centuriões.
O inferno viria da justiça imparcial, pensara Edvardo.
E estava certo, o monarca.
O dia seguinte se deu com o sofrido povo castigando
Não o promíscuo e irresponsável Rei,
Mas atirando pedras na jovem que ia ser sacrificada,
Troçando-a como 'prostituta cega'.
O povo tomava aquele ato de ódio
Contra uma deficiente e adolescente menina,
Por que dizem que prender o ódio faz mal ao coração,
Mas descarregá-lo no Rei
Faz mal aos bolsos.
Noites belas costumam ser também, artistas;
E aquela noite decidiu desenhar
Traços de Cavaleiro Negro.
Jorquè entrou sorrateiro na cidade e seu diabólico corsel
Cavalgava cidatela adentro,
Com seu jóquei despedaçando pelas ruas
Tudo que era vivo e de carne,
Pintando os muros e estradas
De vermelho.
Corpos de homens, mulheres e crianças
Se misturavam aos pedaços no chão;
Os que sobreviviam se escondiam em abrigos subterrâneos
E clamavam a qualquer coisa que pudesse ouvir
Que a noite acabasse de vez.
O cavaleiro e seu cavalo iam a trote procurando
Pelo resto de cidadãos que ainda vivessem,
Pois a sede de sangue desse demônio encarnado
Ainda estava começando.
E fora atiçada quando vira na Ágora,
Uma figura encapuzada se postava de pé,
Quase como desafiando Jorquè.
O Diabo de malha preta botou o cavalo a galope rápido,
Reto em direção à vítima.
Ia implacável e quase desesperado.
A figura de capuz sacou uma singular espada,
De forma ligeira passou a lâmina no torso do cavaleiro,
No exato momento em que este estava com sua espada no alto,
Passando a galope.
O povo, incrédulo chegava perto do corpo partido do cavaleiro,
E depois olhara para seu benfeitor, que permanecia parada
No mesmo lugar, com a espada abaixada,
A incredulidade tomava conta daquela gente,
Não pela morte do Diabo,
Mas por terem sidos salvos
Por uma prostituta cega,"
Só tinha um Rei, que sábio de berço
Devia sempre ser, não por família,
Mas por escolha de um Destino fanfarrão.
A cidade crescia mais e mais
Em torno dos três Centuriões de Ouro,
Que informavam a decisão do universo
Para o pequeno povo.
Não tinham rostos, os monólitos dourados;
Somente um espaço para as palavras.
Uma de cada vez e as três juntas.
Do rosto de cada Centurião, o veredicto
Da boca de cada Rei, a interpretação.
Rei Edvardo, desde pequeno criado para ser Rei,
Livros de legislação e filosofia ainda muito jovem
Estudos ao invés de anedotas,
Tirou-se o açúcar da infância
E se acrescentou a gosto o ferro das leis.
A receita correta para servir um tirano à moda.
Os centuriões se levantam da pose estática
E põe-se de pé a anunciar as palavras já escolhidas,
Por ninguém sabe quem, mas precisamente
Como o carrasco ao réu.
Nos visores dos capacetes das estátuas vivas aparece :
JORQUÈ - VIRGO - MORTEM
A Ágora estava em pânico.
As três palavras pareciam centenas,
Pois pareciam detalhar cada condição
Do que seria uma sentença final.
"O Cavaleiro escuro, Jorqué.
Aparece sob a constelação de Virgem,
Semeia horror como quer,
As mulheres morrem de vertigem,
As crianças morrem de pé."
Assim era um poema popular daquele povo,
Que não apreciava cantigas de amor,
Só lamentos de almas perdidas
E choros de almas banhadas em dor.
O Rei chegou ao seu ápice,
Filosofou e maturou a resposta celestial:
Exigiu as virgens da cidade
Para completar o ritual,
Ritual de libertação de seu povo,
Com a bênção do Universo,
Que, como dizia o sábio Rei;
Clama seu sacrifício carnal.
O povo entregou ,sem demora, as humildes jovens,
Nunca prontas ao destino injusto;
E trancafiadas foram
Nos aposentos do Rei.
Na noite do sacrifício, uma confissão dura :
Rei Edvardo e uma das jovens, Temys, a cega; estão apaixonados,
Deitaram-se pela manhã
E arrependeram-se quando viram o fatal presságio,
Do reflexo das chamas da fogueira nas armaduras dos Centuriões.
O inferno viria da justiça imparcial, pensara Edvardo.
E estava certo, o monarca.
O dia seguinte se deu com o sofrido povo castigando
Não o promíscuo e irresponsável Rei,
Mas atirando pedras na jovem que ia ser sacrificada,
Troçando-a como 'prostituta cega'.
O povo tomava aquele ato de ódio
Contra uma deficiente e adolescente menina,
Por que dizem que prender o ódio faz mal ao coração,
Mas descarregá-lo no Rei
Faz mal aos bolsos.
Noites belas costumam ser também, artistas;
E aquela noite decidiu desenhar
Traços de Cavaleiro Negro.
Jorquè entrou sorrateiro na cidade e seu diabólico corsel
Cavalgava cidatela adentro,
Com seu jóquei despedaçando pelas ruas
Tudo que era vivo e de carne,
Pintando os muros e estradas
De vermelho.
Corpos de homens, mulheres e crianças
Se misturavam aos pedaços no chão;
Os que sobreviviam se escondiam em abrigos subterrâneos
E clamavam a qualquer coisa que pudesse ouvir
Que a noite acabasse de vez.
O cavaleiro e seu cavalo iam a trote procurando
Pelo resto de cidadãos que ainda vivessem,
Pois a sede de sangue desse demônio encarnado
Ainda estava começando.
E fora atiçada quando vira na Ágora,
Uma figura encapuzada se postava de pé,
Quase como desafiando Jorquè.
O Diabo de malha preta botou o cavalo a galope rápido,
Reto em direção à vítima.
Ia implacável e quase desesperado.
A figura de capuz sacou uma singular espada,
De forma ligeira passou a lâmina no torso do cavaleiro,
No exato momento em que este estava com sua espada no alto,
Passando a galope.
O povo, incrédulo chegava perto do corpo partido do cavaleiro,
E depois olhara para seu benfeitor, que permanecia parada
No mesmo lugar, com a espada abaixada,
A incredulidade tomava conta daquela gente,
Não pela morte do Diabo,
Mas por terem sidos salvos
Por uma prostituta cega,"
sexta-feira, 3 de abril de 2015
Sangere Rom.
"Na mais alta torre de sua curiosidade, um estudioso de sociedades exóticas examina o acervo universitário de obras etnográficas.
Seu olhos procuram, incessantes, por algo peculiar entre as páginas dos livros. Tudo passa tão rápido diante dos óculos; letras, páginas, livros...Sociedades Viajantes : Relatos Incompletos.
Esse livro o instigou como o algo peculiar que o estudioso procurava. Sentiu-se como uma criança encontra a mãe em meio a multidão.
Debruçou-se sobre o livro e lá inciou sua caçada. Os nomes dados às sociedades eram quase científicos e pouco se falava sobre as opiniões e fatos puros sobre o que o povo contava, se é que contava algo. Os relatos eram distanciados e frios.
O estudioso enfim encontrou sua alavanca de revolução : Construir um relato com a voz dos exóticos.
Então decidiu escolher quais.
Rovdyr Rom, os sanguinários; Trevirke Rom, os toscos; Hengivne Rom, os benevolentes...Todos os relatórios eram monolíticos e tediosos; e qualquer povo poderia ser revisto. Entretanto um povo particular chamou a atenção : Os Sangere Rom. Na descrição estava "Os Artistas". O relato era curto e perturbador : "Quem os encontra, encontra também sua perdição e não mais retorna para casa."
O estudioso respirou fundo, arrumou sua bolsa de viagens e sua roupa. Hesitou com a mão na vela de seu dormitório e após um longo segundo a apagou para dormir seu possível último sono em uma cama.
Viajou em direção ao norte. Atravessou bosques, rios e por fim alguns belíssimos fiordes. As luzes do sol no norte parecem em fim ganhar um sentido harmônico longe da melancólica e cinzenta cidade que vivia.
Encontrou alguns outros viajantes; fora assaltado, embora tenha conseguido escapar em uma cômica anedota e banhou-se em chuva do norte.
Por fim; lá estavam eles. Parados ao redor da fogueira , no coração da floresta, os Sangere Rom. O coração do viajante experimentou a dicotômica sensação de bombear sangue frio de medo e quente de alegria.
A madrugada invadiu a noite e eles continuavam a cantarolar de forma magnífica canções em uma língua totalmente particular a eles e nova ao estudioso. Este cria coragem e desce a rocha que estava para tentar se apresentar a a eles.
"Quem os encontra, encontra também sua perdição e não mais retorna para casa"
A cantoria cessou repentina e todos fitaram o estudioso, que andou a eles de cabeça baixa e devagar.
Nada fizeram, apenas o observaram.
O estudioso parou e observou a reação do povo andante.
Todos o observavam. Um frio lhe correu a espinha e ele sentiu louca vontade de correr de volta à pedra.
Um deles se movimenta. Pega o alaúde e dirige-se ao estudioso em perfeito sotaque :
-Sente-se.
O estudioso obedece de pronto e senta na grama. Apreensivo
Os acordes começam a ganhar força nos alaúdes em sua volta; todos em perfeita sincronia. Uma mulher sai de dentro de uma das tendas espalhadas; fecha os olhos e começa a cantar com explêndia voz :
"Somos os Sangere Rom, filhos da floresta.
Cantamos com os tordos, tentilhões
E a luz do sol.
Nosso caminhar é lento
Nosso canto é sereno
Nosso coração é ameno.
Temos a floresta de coberta
A grama de cama
E a lua de vela.
Nossa fé é a música
Nossa música é o amor
Nosso amor é o ouro.
O caminho é muito longo
E não vem de qualquer parte
A vida é muita curta
E não vai lugar algum
Apagamos as velas de noite
Pois o fogo das florestas
Está em seu próprio coração
E arde sem queimar."
Depois do canto de apresentação, os Sangere ofereceram farta ceia em recepção ao perplexo estudioso, que ouvira cada palavra (Em sua própria língua, o que reforçou o espanto) da bela e simples canção.
Seus temores eram reais.
O estudioso não voltou mais para casa; juntou-se aos Sangere Rom e o último relato que fez na vida foi a felicidade cantada que se instalou em seu coração pelo resto de seus dias."
"O que impressiona o homem no espetáculo dos outros homens são os pontos em que se assemelham" - Claude Lévi-Strauss.
Seu olhos procuram, incessantes, por algo peculiar entre as páginas dos livros. Tudo passa tão rápido diante dos óculos; letras, páginas, livros...Sociedades Viajantes : Relatos Incompletos.
Esse livro o instigou como o algo peculiar que o estudioso procurava. Sentiu-se como uma criança encontra a mãe em meio a multidão.
Debruçou-se sobre o livro e lá inciou sua caçada. Os nomes dados às sociedades eram quase científicos e pouco se falava sobre as opiniões e fatos puros sobre o que o povo contava, se é que contava algo. Os relatos eram distanciados e frios.
O estudioso enfim encontrou sua alavanca de revolução : Construir um relato com a voz dos exóticos.
Então decidiu escolher quais.
Rovdyr Rom, os sanguinários; Trevirke Rom, os toscos; Hengivne Rom, os benevolentes...Todos os relatórios eram monolíticos e tediosos; e qualquer povo poderia ser revisto. Entretanto um povo particular chamou a atenção : Os Sangere Rom. Na descrição estava "Os Artistas". O relato era curto e perturbador : "Quem os encontra, encontra também sua perdição e não mais retorna para casa."
O estudioso respirou fundo, arrumou sua bolsa de viagens e sua roupa. Hesitou com a mão na vela de seu dormitório e após um longo segundo a apagou para dormir seu possível último sono em uma cama.
Viajou em direção ao norte. Atravessou bosques, rios e por fim alguns belíssimos fiordes. As luzes do sol no norte parecem em fim ganhar um sentido harmônico longe da melancólica e cinzenta cidade que vivia.
Encontrou alguns outros viajantes; fora assaltado, embora tenha conseguido escapar em uma cômica anedota e banhou-se em chuva do norte.
Por fim; lá estavam eles. Parados ao redor da fogueira , no coração da floresta, os Sangere Rom. O coração do viajante experimentou a dicotômica sensação de bombear sangue frio de medo e quente de alegria.
A madrugada invadiu a noite e eles continuavam a cantarolar de forma magnífica canções em uma língua totalmente particular a eles e nova ao estudioso. Este cria coragem e desce a rocha que estava para tentar se apresentar a a eles.
"Quem os encontra, encontra também sua perdição e não mais retorna para casa"
A cantoria cessou repentina e todos fitaram o estudioso, que andou a eles de cabeça baixa e devagar.
Nada fizeram, apenas o observaram.
O estudioso parou e observou a reação do povo andante.
Todos o observavam. Um frio lhe correu a espinha e ele sentiu louca vontade de correr de volta à pedra.
Um deles se movimenta. Pega o alaúde e dirige-se ao estudioso em perfeito sotaque :
-Sente-se.
O estudioso obedece de pronto e senta na grama. Apreensivo
Os acordes começam a ganhar força nos alaúdes em sua volta; todos em perfeita sincronia. Uma mulher sai de dentro de uma das tendas espalhadas; fecha os olhos e começa a cantar com explêndia voz :
"Somos os Sangere Rom, filhos da floresta.
Cantamos com os tordos, tentilhões
E a luz do sol.
Nosso caminhar é lento
Nosso canto é sereno
Nosso coração é ameno.
Temos a floresta de coberta
A grama de cama
E a lua de vela.
Nossa fé é a música
Nossa música é o amor
Nosso amor é o ouro.
O caminho é muito longo
E não vem de qualquer parte
A vida é muita curta
E não vai lugar algum
Apagamos as velas de noite
Pois o fogo das florestas
Está em seu próprio coração
E arde sem queimar."
Depois do canto de apresentação, os Sangere ofereceram farta ceia em recepção ao perplexo estudioso, que ouvira cada palavra (Em sua própria língua, o que reforçou o espanto) da bela e simples canção.
Seus temores eram reais.
O estudioso não voltou mais para casa; juntou-se aos Sangere Rom e o último relato que fez na vida foi a felicidade cantada que se instalou em seu coração pelo resto de seus dias."
"O que impressiona o homem no espetáculo dos outros homens são os pontos em que se assemelham" - Claude Lévi-Strauss.
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