segunda-feira, 13 de julho de 2015

Poema do pequeno Baú, ou A Caixa de Pandora.

"Eu tenho um palpite
 Eu tenho um palpite
 Eu tenho um palpite
 Eu tenho um palpite.

 Não.

 É quase tudo que me sai à cabeça,
 Quando o bauzinho faz os sons graves
 Virarem , no ar, signos misteriosos,
 Ou ostenta , de próprio significado
 Um ainda mais misterioso signo :
 Um sorriso.

 O bauzinho se deixa levar pelo embalo saboroso
 Da noite de festa,
 Mas sou , de fundo orgulho,
 O conhecedor primo dos seus segredos.

 Segredos esses que atraíram um certo
 Curioso
 A fuçar-te as dobradiças
 Atrás das respostas às próprias inquietações da vida
 Dentro de um bauzinho
 Sem tranca,
 Mas com singular fecho.

 Não tenho sua chave,
 Não o controlo,
 Mas torno um prazer da vida
 Fazer o bauzinho gargalhar,
 Para que seu interior eu veja.
 Não é tão raso quanto o mesmo se imagina,
 Guarda em si profundas
 Forças,
 Fraquezas,
 E um mundo tão em si
 Que não vejo o Baú como uma coisa,
 Mas
 Sim
 Algo em si,
 Que sempre guarda o mais essencial caráter humano,
 E que não pode ser apenas a caixa de Pandora,
 Mas a própria Pandora :
 Única,
 Primeira,
 Magnífica.

sábado, 4 de julho de 2015

A Razão da Justiça.

"Era uma nação muito engraçada,
 Só tinha um Rei, que sábio de berço
 Devia sempre ser, não por família,
 Mas por escolha de um Destino fanfarrão.

 A cidade crescia mais e mais
 Em torno dos três Centuriões de Ouro,
 Que informavam a decisão do universo
 Para o pequeno povo.

 Não tinham rostos, os monólitos dourados;
 Somente um espaço para as palavras.
 Uma de cada vez e as três juntas.
 Do rosto de cada Centurião, o veredicto
 Da boca de cada Rei, a interpretação.

 Rei Edvardo, desde pequeno criado para ser Rei,
 Livros de legislação e filosofia ainda muito jovem
 Estudos ao invés de anedotas,
 Tirou-se o açúcar da infância
 E se acrescentou a gosto o ferro das leis.
 A receita correta para servir um tirano à moda.

 Os centuriões se levantam da pose estática
 E põe-se de pé a anunciar as palavras já escolhidas,
 Por ninguém sabe quem, mas precisamente
 Como o carrasco ao réu.
 Nos visores dos capacetes das estátuas vivas aparece :
 JORQUÈ - VIRGO - MORTEM

 A Ágora estava em pânico.
 As três palavras pareciam centenas,
 Pois pareciam detalhar cada condição
 Do que seria uma sentença final.

 "O Cavaleiro escuro, Jorqué.
 Aparece sob a constelação de Virgem,
 Semeia horror como quer,
 As mulheres morrem de vertigem,
 As crianças morrem de pé."

 Assim era um poema popular daquele povo,
 Que não apreciava cantigas de amor,
 Só lamentos de almas perdidas
 E choros de almas banhadas em dor.

 O Rei chegou ao seu ápice,
 Filosofou e maturou a resposta celestial:
 Exigiu as virgens da cidade
 Para completar o ritual,
 Ritual de libertação de seu povo,
 Com a bênção do Universo,
 Que, como dizia o sábio Rei;
 Clama seu sacrifício carnal.

 O povo entregou ,sem demora, as humildes jovens,
 Nunca prontas ao destino injusto;
 E trancafiadas foram
 Nos aposentos do Rei.

 Na noite do sacrifício, uma confissão dura :
 Rei Edvardo e uma das jovens, Temys, a cega; estão apaixonados,
 Deitaram-se pela manhã
 E arrependeram-se quando viram o fatal presságio,
 Do reflexo das chamas da fogueira nas armaduras dos Centuriões.
 O inferno viria da justiça imparcial, pensara Edvardo.
 E estava certo, o monarca.

 O dia seguinte se deu com o sofrido povo castigando
 Não o promíscuo e irresponsável Rei,
 Mas atirando pedras na jovem que ia ser sacrificada,
 Troçando-a como 'prostituta cega'.
 O povo tomava aquele ato de ódio
 Contra uma deficiente e adolescente menina,
 Por que dizem que prender o ódio faz mal ao coração,
 Mas descarregá-lo no Rei
 Faz mal aos bolsos.

Noites belas costumam ser também, artistas;
E aquela noite decidiu desenhar
Traços de Cavaleiro Negro.
 Jorquè entrou sorrateiro na cidade e seu diabólico corsel
 Cavalgava cidatela adentro,
 Com seu jóquei despedaçando pelas ruas
 Tudo que era vivo e de carne,
 Pintando os muros e estradas
 De vermelho.

 Corpos de homens, mulheres e crianças
 Se misturavam aos pedaços no chão;
 Os que sobreviviam se escondiam em abrigos subterrâneos
 E clamavam a qualquer coisa que pudesse ouvir
 Que a noite acabasse de vez.

 O cavaleiro e seu cavalo iam a trote procurando
 Pelo resto de cidadãos que ainda vivessem,
 Pois a sede de sangue desse demônio encarnado
 Ainda estava começando.
 E fora atiçada quando vira na Ágora,
 Uma figura encapuzada se postava de pé,
 Quase como desafiando Jorquè.

 O Diabo de malha preta botou o cavalo a galope rápido,
 Reto em direção à vítima.
 Ia implacável e quase desesperado.

 A figura de capuz sacou uma singular espada,
 De forma ligeira passou a lâmina no torso do cavaleiro,
 No exato momento em que este estava com sua espada no alto,
 Passando a galope.

 O povo, incrédulo chegava perto do corpo partido do cavaleiro,
 E depois olhara para seu benfeitor, que permanecia parada
 No mesmo lugar, com a espada abaixada,

 A incredulidade tomava conta daquela gente,
 Não pela morte do Diabo,
 Mas por terem sidos salvos
 Por uma prostituta cega,"




sexta-feira, 3 de abril de 2015

Sangere Rom.

"Na mais alta torre de sua curiosidade, um estudioso de sociedades exóticas examina o acervo universitário de obras etnográficas.
Seu olhos procuram, incessantes, por algo peculiar entre as páginas dos livros. Tudo passa tão rápido diante dos óculos; letras, páginas, livros...Sociedades Viajantes : Relatos Incompletos.
Esse livro o instigou como o algo peculiar que o estudioso procurava. Sentiu-se como uma criança encontra a mãe em meio a multidão.
Debruçou-se sobre o livro e lá inciou sua caçada. Os nomes dados às sociedades eram quase científicos e pouco se falava sobre as opiniões e fatos puros sobre o que o povo contava, se é que contava algo. Os relatos eram distanciados e frios.
O estudioso enfim encontrou sua alavanca de revolução : Construir um relato com a voz dos exóticos.
Então decidiu escolher quais.
Rovdyr Rom, os sanguinários; Trevirke Rom, os toscos; Hengivne Rom, os benevolentes...Todos os relatórios eram monolíticos e tediosos; e qualquer povo poderia ser revisto. Entretanto um povo particular chamou a atenção : Os Sangere Rom. Na descrição estava "Os Artistas". O relato era curto e perturbador : "Quem os encontra, encontra também sua perdição e não mais retorna para casa."
O estudioso respirou fundo, arrumou sua bolsa de viagens e sua roupa. Hesitou com a mão na vela de seu dormitório e após um longo segundo a apagou para dormir seu possível último sono em uma cama.
Viajou em direção ao norte. Atravessou bosques, rios e por fim alguns belíssimos fiordes. As luzes do sol no norte parecem em fim ganhar um sentido harmônico longe da melancólica e cinzenta cidade que vivia.
Encontrou alguns outros viajantes; fora assaltado, embora tenha conseguido escapar em uma cômica anedota e banhou-se em chuva do norte.
Por fim; lá estavam eles. Parados ao redor da fogueira , no coração da floresta, os Sangere Rom. O coração do viajante experimentou a dicotômica sensação de bombear sangue frio de medo e quente de alegria.
A madrugada invadiu a noite e eles continuavam a cantarolar de forma magnífica canções em uma língua totalmente particular a eles e nova ao estudioso. Este cria coragem e desce a rocha que estava para tentar se apresentar a a eles.
"Quem os encontra, encontra também sua perdição e não mais retorna para casa"
A cantoria cessou repentina e todos fitaram o estudioso, que andou a eles de cabeça baixa e devagar.
Nada fizeram, apenas o observaram.
O estudioso parou e observou a reação do povo andante.
Todos o observavam. Um frio lhe correu a espinha e ele sentiu louca vontade de correr de volta à pedra.
Um deles se movimenta. Pega o alaúde e dirige-se ao estudioso em perfeito sotaque :
-Sente-se.
O estudioso obedece de pronto e senta na grama. Apreensivo
Os acordes começam a ganhar força nos alaúdes em sua volta; todos em perfeita sincronia. Uma mulher sai de dentro de uma das tendas espalhadas; fecha os olhos e começa a cantar com explêndia voz :

"Somos os Sangere Rom, filhos da floresta.
Cantamos com os tordos, tentilhões
E a luz do sol.

Nosso caminhar é lento
Nosso canto é sereno
Nosso coração é ameno.

Temos a floresta de coberta
A grama de cama
E a lua de vela.

Nossa fé é a música
Nossa música é o amor
Nosso amor é o ouro.

O caminho é muito longo 
E não vem de qualquer parte
A vida é muita curta 
E não vai lugar algum

Apagamos as velas de noite
Pois o fogo das florestas
Está em seu próprio coração
E arde sem queimar."

Depois do canto de apresentação, os Sangere ofereceram farta ceia em recepção ao perplexo estudioso, que ouvira cada palavra (Em sua própria língua, o que reforçou o espanto) da bela e simples canção.
Seus temores eram reais.
O estudioso não voltou mais para casa; juntou-se aos Sangere Rom e o último relato que fez na vida foi a felicidade cantada que se instalou em seu coração pelo resto de seus dias."

"O que impressiona o homem no espetáculo dos outros homens são os pontos em que se assemelham" - Claude Lévi-Strauss.



domingo, 15 de março de 2015

O Processo da Morte.

"A morte parece menos horrível quando se está cansado." Simone de Beauvoir

"É extremamente doloroso e desencorajador descer todos os dias a este canto do inferno. Este canto frio e escuro salpicado das luzes da rua é uma sala de interrogatório que as trevas do meu espírito me carregam para uma audiência de tempo inconstante. Quando elas se sentem entediadas ou incomodadas, sussurram pânico e tratam de incendiar minha curta paz como se incendeia uma carta de ex-amante. Devagar e deleitando cada milímetro que o fogo avança e corrói a própria existência do papel.
 Esse processo de sentar, maturar e escrever - Sejam crônicas, romances, poemas, tratados ou lamentos - Deveria ser um talento nato e inspirador, que carregaria as palavras pelos textos como o vento carrega os aromas do campo. Porém este fatídico processo é de morte. Um a um, depositam-se partes do próprio eu que deviam ser aproveitadas para construir-se algo que mais pessoas pudessem desfrutar. Livros, artigos, manifestos; qualquer obra, por mínima que fosse afim de iluminar que seja um passo de uma pessoa. Um passo que esta pessoa dá em direção ao sonho.
 Os sonhos se desmancham e são julgados quando chega-se ao fim da vida. Porém é possível descobrir, nesse meio tempo entre nascer e morrer; a inconsumível e insaciável maçã do Éden : A destrutiva arte da metafísica.
 Gastar algumas interruptas horas da sua vida com perguntas de pouca utilidade prática podem, sinceramente fazer-te enxergar a contagem regressiva à tua morte. Se aproximar do conhecimento metafísico é como ir em direção a uma pantera; uma vez que a fera te enxerga, não há fuga. Embora todos saibamos que temos um fim, nos negamos a aceitá-lo. A vil ganância por progresso e acúmulo de bens parece assemelhar-se a essas sombras que sussurram desespero em meus ouvidos. Porém no ouvidos dos gananciosos mentem a eles algo sobre riqueza e imortalidade, fazendo o sangue chegar perto de ebulir de tanto furor.
  Os relógios do meu tempo não fazem tic-tac, porém a mudança abrupta de algarismo libera alguns instantes de vozes das almas que se perderam no vão do tempo.O pouquíssimo ou nenhum conhecimento que possuo de metafísica é um canal frágil. porém nítido para canalizar estas vozes perturbadoras no interior da minha mente. Os gritos fazem ecos nas paredes do meu crânio, depois descem à língua e sinto gosto de fuligem. Fuligem ou cinzas de corpos queimados.
 Quando finalmente volto a mim, o desespero se acentua, pois ainda não posso me sentir aliviado por ter morrido, de fato."

S.


sexta-feira, 13 de março de 2015

Noite de Escuro Eterno.

"O mundo está lá fora,
  Pronto para ser consumido.

  Deixo o vil prazer às carnes mais ansiosas;
  Que fazem luzes e barulhos sem pudor,
  Como se a própria natureza da escuridão
  Fosse cega e surda.

  Os menores deleites são os mais imprescindíveis,
  Na noite de escuro eterno;
  Em que as chamas da vela iluminam o espírito
  Através do próprio corpo, como no papel;
  E destacam na escuridão virgem da parede
  O espírito de todas as coisas,
  Que é sombrio tanto de dia como de noite.

  Atiro esse anel de ouro junto à tempestade
  Que enfurece noite adentro.
  Molha minha janela
  Com chuva
  E minha cama
  Com sangue.

  O fogo noturno apaga.
  A lua mudou de posição como faz o sol;
  Então por ela marco as horas regressivas
  Que a noite noite me faz aguardar
  Ante a terrível sentença de um dia luminoso.

  As brasas remanescentes da lareira
  Têm um brilho tímido,
  Ao que leva a crer que,
  Quanto mais forte um fogo na escuridão
  Menos luz ele parece ser;
  Apenas uma janela ao inferno."

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Animatrônicos.

"Meu nome não importa, muito menos quem sou. Mas sou homem, tô' na meia idade...E apavorado.
 Estou dentro do quarto do pânico da minha casa. O que quer que esteja lá fora está tentando entrar aqui e me pegar. Estava atrás do meu filho também, mas ele encontrou abrigo nos exaustores da casa.
Um berro estridente e por uma das câmeras de segurança vejo sangue espirrar e depois escorrer pelo exaustor de um dos corredores. Pegaram meu filho, e fui muito covarde para tê-lo trazido aqui. Mas estou seguro; isso que importa. Posso começar vida nova, ter filhos novos, casa nova...Esquecer isso...
Por uma das câmeras de segurança vejo o pirata Sheldon esfregar sua cara de plástico carbonizado e ferro oxidado na porta do quarto do pânico.Ele para automaticamente, se vira e dá a volta no corredor.

As coisas fugiram ao controle...Eram simples bonecos animatrônicos de uma lanchonete antiga. O Max os amou à primeira vista...Ele dizia que...Sentia...Sentia uma ligação com os bichos. Essa ligação se rompeu quando essas coisas o destriparam.
Sheldon, o pirata; Tim, o palhaço e Jude...A coisa com mínimas feições femininas.

Os três diabos estão lá fora, procurando uma maneira de entrar.Eles mal me viram, mas sabem que estou aqui. Me sentem, mas não pelo medo; me sentem pelo instinto  de assassino.
Jude...Está olhando diretamente para a câmera da cozinha. Olhando para o vazio de uma câmera filmadora. As máquinas parecem conversar uma espécie de linguagem não verbal entre si; mas além disso, o sentido demoníaco que faz os animatrônicos andarem, faz Jude me ver sem ver. Faz os bonecos caminharem sem vida. Faz minha cabeça se lembrar que Deus me abandonou à minha sorte, contra o que quer que esteja fazendo esse palhaço insano ficar observando a cabeça mutilada de meu filho...
Sheldon achou a caixa de força da casa.
Sheldon mordeu os fios.
A luz da casa caiu, porém o quarto continuou aceso, e um aviso de noventa e nove por cento de bateria restante surgiu no ecrã do sistema de câmeras.
Noventa e nove por  cento de energia restante.
Quando chegar a zero, irei conhecer o inferno; escuro e frio.

Os barulhos de eletricidade são fortes através dos circuitos do gerador interno. Desligo a luz interna para administrar a energia restante afim de adiar o que está por vir.

Vinte e quatro por cento.
Tim e Jude vagam pela casa sem objetivo.Eles não se esgotam.Os interruptores dos bonecos devem ter o modo "matar".

Vinte por cento.
Não vejo Sheldon.
A câmera do Hall de visitas foi desligada.

Doze por cento.
Há um machado de incêndio.
Meu suor escorre pela testa e cria nodas na minha blusa.
É como uma visão de onde o sangue vai escorrer.

Cinco por cento.
Havia me preparado para lutar, quando a energia findasse.
Derrubei o machado quando olhei para a câmera do corredor.
Havia uma marca caótica, porém inteligível na parede, feita com sangue.
Um emblema que registrava algo nessa casa. Algo tomava conta desses bonecos.
E também do corpo do meu filho, que rastejava moribundo; sem sangue nem alma, apenas com o olhar vazio e fixo para a câmera de segurança.

Zero por cento.

..."


Todos os jornais passavam a mesma bizarra e instigante manchete : Pai é acusado de assassinar brutalmente o filho e culpa os bonecos animatrônicos.
O pai já fora diagnosticado por surtos psicóticos, e será levado a tribunal ainda esta semana.

A casa cercada pela polícia e a cena do crime manchada de sangue. O sistema elétrico da casa estava em ruínas, com sinais de golpes de machado pelas canaletas, fios e quadro elétrico.
Na prateleira do quarto do falecido garoto estavam seus bonecos animatrônicos.
Tim, o palhaço.
Jude, a coisa.
Na poltrona da sala estava Sheldon, o pirata.
O perito veio buscá-lo para análise, quando tropeçou em um palhaço.
Jude observava tudo do quarto do pânico."

domingo, 21 de dezembro de 2014

A Cidade Das Brumas.

"A palavra faz a magia.
    Era a inscrição gravada em carvalho polido, que recebia os olhares aos portões da cidade das brumas. Apenas olhares, pois em sã consciência, ninguém desejaria se aventurar pela cidade proibida de atmosfera eternamente soturna. Em limites bem definidos com a Cidade das Brumas, estava Isolatua; uma vila pacífica na encosta de uma serra, aonde só os mais suaves ventos cantavam. Entretanto, se estiver na praça central de Isolatua e olhar de costas ao monólito que enfeita o meio da vila, verá os portões eternamente entreabertos da cidade proibida. Então perceberá que os ventos calmos que sopram a paz na vila são na verdade ventos tristes com vozes de uma língua antiga que trazem apenas a paz da morte.
   Não há uma cerca entre a cidade proibida e a vila, que ficam a poucas braçadas de distância uma da outra, tendo nesse entrecaminho apenas guardas imóveis com lustrosas armaduras de aço polido. Quando há iminência de ameaça, sacam as longas espadas e posicionam-se em linha perfeita, sem a mínima hesitação; totalmente automáticos. Contrastam bem com a vila rústica, e de pessoas simples e mineradores de carvão.Nunca souberam quem eram esses guardas nem de onde vieram. Mas sempre que um sumia, outro aparecia em seu lugar instantaneamente. Isso mesmo, sumia, pois não haviam rastros de sangue ou corpos; nem mesmo alguma peça da armadura. Simplesmente desaparecia.
   A cidade das brumas possuía cinco setores : A velha floresta, aonde dizem morar seres vis e de almas podres; O cais, uma construção abandonada voltada para o lago de água turva e parada; O pântano, escondido na margem da floresta; a área da Grande Casa uma das únicas construções que ainda está intacta; e a mais incômoda aos olhos : A Torre do Templo, que não é exageradamente grande, mas sabe-se que abriga o necromante fundador e único morador daquela cidade inóspita. O dito na placa da entrada é única frase compreensível que por ele já fora dita, o resto são murmúrios aterrorizantes em três tempos, que podem ser ouvidos a larga distância.

UTZIPREB ZENIO NEZTLIH !

   Corvos voaram de dentro da cidade das brumas e se espalharam pelo céu. Os mais curiosos saíram da cama para ver se havia novidade pós-grito do necromante, porém se decepcionaram ao se deparararem com o mesmo estranho evento anual. No início da semana de Natal, todo ano o necromante grita ao vento murmúrios variados ou incompreensíveis à distância ou até mesmo de perto. Os arrepios percorrem em uníssono as espinhas de todas as crianças da cidade quando o grito é emanado. Os curiosos voltaram para suas camas quentes, pois amanhã começavam os preparativos da comunidade para o Natal. Se tivessem ficado mais, veriam o clarão verde emanar ligeiramente da velha floresta.
   O dia seguinte começou ensolarado com bastante nuvens para deixar o clima agradável e ameno. o fervor dos vilões com os preparativos de Natal era alto e naturalmente caótico, porém pintava de um vermelho natalino e alegre a pequena Isolatua. O aconchego se estendeu laborioso até o fim do dia, e das casas era possível sentir um...

OKEZT' AREDNEM IZIB !

   O furor foi interrompido pelo grito do necromante. Toda a vila em silêncio observava a torre em silêncio, enquanto o crepúsculo tentava dizer algo timidamente. Quietamente, a praça da vila e suas ruas adjacentes foram se esvaziando. Havia algo diferente naquele ano.
   De noite chovia forte, e os pingos ariscos ricocheteavam nas armaduras dos imóveis guardiões da cidade. A areia da orla ficava densa.Um trovão cai. Alguns segundos após, as nuvens de chuva se agrupam acima do centro da velha floresta.
   Os dias seguintes seguiram-se com o devido furor e alegria do qual começara a semana; e no fim de tarde da véspera de Natal, todos iam à igreja orar,agradecer e fazer seus votos de Natal ao Cristo. A união da cantata em latim era aconchegante e inspirava as histórias bíblicas nos corações dos fiéis. A igreja oferecia ceia farta e música constante, e os risos e conversas altas recheavam de vida o ambiente.
   Madrugada de Natal, a vila estava quieta e escura, e os ventos sopravam o mesmo tom de sempre. Pararam por um instante. A figura do necromante cruza o potão da Cidade das Brumas e caminha lento em direção à vila. Os guardiões o acompanharam severamente apenas com olhares, e quando ele sai do campo de visão destes, voltaram sua atenção ao vácuo do portão da cidade das brumas.
  O rosto do necromante era demasiado branco e seus olhos com pupilas sempre dilatadas olhavam fixo para frente. Andava sempre com a boca aberta e tinha o maxilar alargado, o que lhe cedia um aspecto monstruoso.Andava manco, como se estivesse com uma das pernas quebradas, e trajava uma túnica roxa com a impressão em tinta preta de uma mão espalmada no peito.
  Chegou ao monólito de pedra no centro da vila e tocou-o com sua fina mão esquerda. O monólito emitiu luz branca de seu centro e apagou. Instantes após, três crianças saíam de suas casas em direção ao necromante, num efeito puramente mesmérico. O necromante e as crianças adentraram caminharam em direção ao portão da cidade das brumas.
  Duas moças e um rapaz. Hipnotizados e com os olhos branco-esfumaçados caminhavam atrás do misterioso necromante pela densa velha floresta. Uma das moças acorda inexplicavelmente do transe e antes de gritar tapa sua boca e sufoca sua morte, por mais alguns instantes. Ela sabia o que estava acontecendo. Ela foi escolhida.
  Seguiu o grupo sem desfazer a postura,mas olhava pros lados. Via vultos mancando, dezenas deles. O necromante os arrancava de seu sono para vagarem moribundos pela cidade de denso nevoeiro. Eles passavam por ela e nada faziam além de olhar profundamente em seus olhos. Isso dava desespero à moça.
   Uma voz rouca rasgou o ar como uma seta venenosa : -"Não os ponho de pé para impedir que entrem. Os invoco para impedir que ele saia." Era a voz do necromante, que fez gelado de medo o coração da moça. Ele continuou : -"Eu sei que acordastes, sacrifício, você é a Utarekua." As outras crianças viraram suas cabeças com olhos brancos para trás e encararam com ar vazio a Utarekua.
  Chegaram ao templo com a torre, e o salão principal estava todo preparado e iluminado para uma cerimônia. Doze sombras humanoides com diferentes máscaras, como as que viu nas paredes das ruínas de pedra na floresta. As sombras estavam de costas para um sarcófago na horizontal, e mais atrás um altar com um livro aberto. Na parede de trás havia o desenho de uma pessoa pequena louvando o que seria uma enorme sombra daquelas, com uma máscara de aspecto demoníaco com uma espada. Embaixo haviam três tubulações que levavam a sulcos no chão, que iam em direção ao sarcófago.
  As duas crianças se posicionaram de joelhos em frente aos tubos e abaixaram as cabeças. As sombras voaram vorazes e devoraram as crianças vivas, que não davam sinal de dor.O Sangue escorria pelos sulcos e caía no sarcófago, e então um berro sem sentido quebrou o silêncio do lugar. Dos corpos ao chão saíram as almas das crianças e voaram rápido em direção à boca do necromante, que as engoliu.
   As sombras fazem um corredor entre o sarcófago e a Utarekua. A tampa do sarcófago é gentilmente empurrada e de lá sai um ser com aspecto humano, porém tomado pela escuridão em um preto máximo, como se fosse uma das sombras,entretanto sólida, e embebido em sangue. Possuía a máscara diabólica do registro na parede do templo. Pegou sua espada no sarcófago e veio lentamente na direção da moça, que estava quase em pânico, porém sabia mais do que nunca qual era seu chamado. Seu coração parou de palpitar forte e levantou a cabeça.
  Alatipak era o nome da divindade que vinha marchando lentamente, com a espada em punho. Era o Deus da morte e caminhava pelo mundo dos vivos para estender sua natureza.
  A voz veio do outro lado do templo : -"Se gritares com a criatura, ela recua. Te mata e depois volta ao sono. Você foi escolhida para ser a necromante que agora guarda esta cidade amaldiçoada. Cumpre teu dever e salva nosso povo."
  A criatura possuía aparência horrível.
Tomada pelo medo, Utarekua renunciou seu dever e correu. O necromante antigo gritou palavras velhas, porém não possuía mais seu poder, então não pôde descansar em paz. Fora do templo, na velha floresta, ouviu os gritos desesperados de uma alma que estava fadada à tormenta eterna, e agora, as sombras eram treze.
  Alatipak destruiu a porta do templo e rumou em direção á vila. O Natal fez com que todos descansassem em suas casas, despreocupados.
  A morte era livre para caminhar mais uma vez."